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05/03/2026

#8M: mulheres fortalecem a gestão da saúde pública no Ceará

Thais Menezes e Márcia Catunda

A presença feminina tem ocupado espaços estratégicos na gestão da saúde pública, contribuindo de forma decisiva para a representatividade das mulheres na formulação e execução de ações e políticas públicas, além de na qualificação dos serviços e na ampliação do acesso da população à assistência.

Em hospitais, coordenadorias e setores administrativos, mulheres lideram equipes, estruturam processos e conduzem decisões que impactam diretamente a vida de milhares de cearenses todos os dias. Mais do que números, essa presença representa competência técnica, sensibilidade na condução de pessoas e compromisso com o Sistema Único de Saúde (SUS). É nesse cenário que esta reportagem reúne histórias de mulheres que fazem a diferença na saúde pública do Ceará, revelando trajetórias marcadas por liderança, compromisso e transformação.

Da implantação aos desafios da direção administrativa do Hospital Regional Norte: conheça a história de Juliana Mendes

No corredor que hoje percorre com a segurança de quem conhece cada detalhe, a diretora administrativa do Hospital Regional Norte (HRN), Juliana Mendes, começou sua trajetória de forma silenciosa, técnica e estratégica. Era 2013, ela ingressou na unidade como assessora de Gestão da Qualidade no Núcleo de Gestão e Segurança do Paciente (Nugesp). O hospital ainda dava seus primeiros passos, e ela também.

Foram três anos dedicados à construção de processos, protocolos e fluxos que hoje sustentam a rotina de uma unidade de alta complexidade. Juliana participou ativamente do planejamento e da implantação dos serviços, contribuindo no dimensionamento de equipes e equipamentos, na organização dos processos e na implementação de ferramentas de acompanhamento. O desafio era grande: estruturar, em tempo reduzido, um hospital de referência inédito na região Norte do Ceará, tanto pelo porte quanto pelo modelo de gestão.

“Precisávamos organizar equipes, estruturar fluxos assistenciais, implantar protocolos e garantir o funcionamento rapidamente”, relembra. Mais do que abrir portas, era necessário garantir identidade.

Em 2016, assumiu a gerência do Núcleo de Atendimento ao Cliente (NAC) e ampliou horizontes. Se antes sua atuação estava concentrada na qualidade e nos processos, naquele momento a gestão de pessoas ganhou protagonismo. Mediação de conflitos, escuta qualificada, construção coletiva de soluções. A liderança foi surgindo de maneira natural, construída no cotidiano das decisões compartilhadas e na confiança conquistada junto às equipes. “Mais do que um cargo, a liderança surgiu como resultado do compromisso, da responsabilidade e da entrega diária”, afirma.

Hoje, à frente da Diretoria Administrativa do HRN, Juliana integra um cenário que simboliza avanço e representatividade: dos quatro cargos de direção da unidade, três são ocupados por mulheres. Em um ambiente historicamente marcado por estruturas hierárquicas rígidas, a presença feminina na alta gestão revela não apenas competência técnica, mas também transformação cultural.

Para ela, os desafios enfrentados ao longo da trajetória estiveram muito mais ligados à complexidade da gestão hospitalar do que ao fato de ser mulher. Ainda assim, reconhece que a liderança feminina agrega características fundamentais à administração em saúde: sensibilidade para lidar com pessoas, capacidade de escuta ativa, visão sistêmica e habilidade de conciliar firmeza com empatia. “Em um hospital de alta complexidade, onde decisões impactam diretamente vidas, é essencial equilibrar racionalidade técnica com olhar humano”, destaca.

Organização, resiliência, perseverança e cuidado com os detalhes são atributos que, segundo ela, fortalecem a gestão e promovem um ambiente colaborativo e orientado para resultados. Não se trata de sobrepor estilos, mas de integrar competências.

Na sua história pessoal e profissional, o HRN ocupa um lugar de marco. Foi ali que viveu o desafio da implantação, amadureceu como gestora e consolidou uma liderança baseada em propósito. “Mais do que um local de trabalho, o HRN simboliza crescimento, superação e a realização de fazer parte da instituição que transformou a assistência e a gestão da saúde na região.”

Entre protocolos, planilhas e decisões estratégicas, a trajetória de Juliana Mendes revela mais do que uma carreira consolidada: conta a história de uma mulher que esteve presente desde a implantação dos primeiros serviços, acompanhando cada etapa de crescimento até a consolidação de um hospital que hoje é referência. Uma instituição que continua avançando, diariamente, com a liderança e a competência de mulheres que ocupam espaços decisivos na gestão.

Da assistência à gestão: a trajetória da médica Patrícia Santana, diretora-geral das UPAs

Nas Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) estaduais, as lideranças femininas prevalecem. Das seis UPAs do Governo do Estado, cinco delas possuem mulheres na coordenação do serviço assistencial, além de uma diretora-geral, a médica emergencista Patrícia Santana.

“Estou na gestão desde 2015 e vi a superação de barreiras das mulheres em cargos de liderança. Nas UPAs, há o investimento na capacitação de cada funcionário e a liderança se torna um fruto de toda essa dedicação. Particularmente, vejo cada vez mais mulheres ocupando esses espaços, especialmente na área de saúde. Comecei como médica da assistência em 2012 e fui buscando aperfeiçoamento em minha carreira”, afirma.

Patrícia relembra a transição como médica da assistência até chegar ao cargo de diretora. “Sou formada desde 2005, comecei como médica do Samu e do Programa Saúde da Família, em que fiquei até 2011. Fiz residência em medicina de emergência pela ESP/CE e entrei como médica na UPA em 2012, atendendo o eixo da pediatria. Até que, por meio de processo seletivo interno, fui promovida a coordenadora da UPA Autran Nunes, onde me identifiquei bastante, pois é um cargo que lida com gestão de pessoas”, relata.

A partir de 2020, Patrícia migrou para a UPA Messejana, ainda como coordenadora. Para ela, um dos maiores desafios da carreira, devido à pandemia de covid-19. Até que, em outubro do mesmo ano, foi promovida a diretora de processos assistenciais.

“Durante todo esse tempo, o senso coletivo permaneceu em mim, assim como a escuta ativa. Na primeira ‘onda’ da pandemia, eu estava como coordenadora e, na segunda ‘onda’, como diretora, o que ampliou bastante a minha visão e meus aprendizados sobre gestão. A residência na área de emergência também foi fundamental para superar esses desafios”.

A gestora afirma que a busca por autoconhecimento e por novos conhecimentos é fundamental para seguir na carreira. “Sou muito grata por todas essas experiências e oportunidades, tenho orgulho dessa jornada. A emergência é um cenário desafiador por ser imprevisível. O primeiro impacto é na porta de entrada, é lá onde temos as primeiras notificações de doenças. Por isso, a importância do profissional investir no seu desenvolvimento profissional e pessoal, mesmo que a gente tenha aprendizados todos os dias nessa jornada”, conclui.

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